terça-feira, 12 de abril de 2016

BAILE DO VIRA-LATA COM JA RULE!

ATENÇÃO!! Hoje às 12h abriremos as vendas para mais um sucesso!!! 
‪#‎bailedoviralata‬ com Ja Rule na véspera do dias dos namorados! 
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Poucas unidades do ingresso promocional.
Somente online!! www.ingresse.com



segunda-feira, 11 de abril de 2016

Questionamentos de uma Criança

Por Deborah Klabin






Uma criança de 7 anos em casa traz à tona mais dúvidas e questionamentos sobre o universo e a existência do que um mestrado em física quântica, eu imagino.
A diferença é que as questões de ciências exatas oferecem livros, professores e formulas que guiam a busca por respostas.
Já os questionamentos dos filhos vem entre uma garfada e outra na hora do jantar, quando menos se espera.
E foi assim que minha filha colocou em pauta a existência do nosso cachorro:
-mãe, o Tutu é castrado, não é?
- É sim.
- Quer dizer que ele não pode ter filhos, certo?
- Isso.
- Então quando ele morrer, nós não teremos mais nada dele no planeta?

Silêncio.

É. O ciclo da vida resumido em 3 perguntas num dialogo de 20 segundos.

Primeiro mudei de assunto drasticamente e pedi para que ela terminasse de comer e tentei ganhar algum tempo para formular uma explicação razoável.
Mas garfada após garfada vi seu rosto se entristecer com a constatação que construiu: nosso cachorro de fato não pode ter filhotes e um dia vai morrer.
O fim do jantar se antecipou por ela ter preferiu agarrá-lo e aproveitar a agora constatada estadia breve do Tutu nesse mundo.
Antes que eu conseguisse explicar a questão mais complexa e fundamental da existência, pedi ajuda à Juliana Camargo, anja-rainha/ fundadora da Ampara e que cuida de muitos anjos de quatro patas. Além disso, ela que trouxe o Tutu até nossa casa e desde então se tornou meu ombro amigo para desamparos e desesperos caninos e humanos.
O que falar a uma criança que questiona a razão da castração atrelando a este procedimento a responsabilidade pela finitude de um amor tão grande quanto o que temos por nosso cachorro?
Como separar cada etapa para explica-la de forma precisa?



O nascimento e a morte de um animal guardam no meio uma vida totalmente dedicada à lealdade e ao amor aos seus donos e é muito sofrido pensar nessa despedida.  
Eu própria fiquei abalada com a constatação da Gloria. Na verdade por muitos dias não soube nem mesmo organizar minhas impressões a respeito disso tudo, mas como num processo de digestão, o tempo foi me dando elementos o bastante para conseguir explicar para ela e para mim mesma a importância da castração e como se dá a continuidade desses seres mesmo sem perpetuarem seus genes.
O Tutu apareceu aqui meio que caído de paraquedas em nossas vidas. Não sabemos bem de onde veio, o que passou, como viveu. Sabemos apenas que foi castrado ainda novo, teve um lar até os 3 anos e sofreu um abandono traumático que culminou em nosso encontro.
Assim como ele, milhões de animais se tornam páreas num mundo incapaz de acolhê-los. Nada que uma breve passagem pelo Google não comprove: não há vagas em abrigos. Não há lares receptivos.
Não há a mesma sorte nossa e do Tutu para muitos outros animais. 
Não há humanos o bastante para tanto animais.
E por isso cabe a nós, humanos, minimizar os transtornos desse quadro terrível que vemos hoje, de um número incontável de animais morrendo atropelados, desnutridos, amarrados em beira de estrada, jogados em córregos para que se afoguem.
A barbárie não encontra limites.
Acreditem, certas coisas precisam ser mostradas aos filhos ainda pequenos, por mais impressionantes que sejam, para que determinados comportamentos se extingam do planeta. Compartilhei com minha filha tudo o que vi de maus tratos a animais de rua e perguntei: "você acha que seria melhor para esse cachorro viver e morrer assim ou simplesmente não ter nascido e ter permanecido estrelinha até a hora que pudesse vir a Terra, mas para viver sendo bem tratado?"
Ah, mas não há resposta boa o suficiente para ela: "mas mãe... Se fosse assim, o Tutu não teria nascido"
Bom, me apoiei em uma equação matemática simples: o Tutu existe e tem um lar. Mas se ele não existisse, teríamos dado nosso lar a outro cachorro, que poderia ser também bastante especial (ela afirma que isso seria impossível porque ele é o mais especial do mundo).
Depois de bastante conversa, a questão de saúde pública dos milhões –sim, MILHÕES- de animais abandonados Brasil parecia bastante clara. É crucial que se tente por todas as frentes de apoio possíveis dar uma vida digna aos cães e isso só é possível com controle populacional.
Além desse cenário que exige uma força-tarefa, vale ressaltar que a castração é determinante para a saúde dos cães domesticados.
Desafio número dois: o Tutu não deixará continuidade de sua genética de puríssimo vira-lata amoroso?



Sabe... Isso era para mim o ponto mais difícil de toda essa conversa porque ele de fato é o cachorro mais amoroso do universo. Mas basta um passeio pelas ruas ou pelos abrigos para constatar que muitos e muitos animais precisam e precisarão sempre de lar e amor. E talvez o Tutu seja mesmo o mais genial dos cães, mas justamente por ser um vira-lata legítimo, sua genética já é naturalmente pulverizada por aí. Portanto não, não confere a informação de que nada dele vai sobrar no mundo quando ele se for, porque ele na verdade está em todo canto!
Sempre poderemos achar em outros vira-latas um pouco do sorriso otimista dele, ou de seu amor por correr na areia, quem sabe? Nossas chances de que isso aconteça de fato existem. Já tiramos a carta premiada uma vez, com sua chegada. Por que não tiraríamos a segunda? Tenho cá pra mim que somos sortudas nesse assunto.
O terceiro ponto, a respeito da eventual e inevitável morte dele num dia que esperamos estar BEM longe: minha filha...TU-DO, tudo MESMO nesse mundo, morre. Gente, árvore, bicho, ideias, certezas, pássaros, amores, flores... Tudo mesmo.
E sabe... Passa rápido demais o tempo que temos para existir. E por isso devemos ser relevantes, por mais difícil que às vezes isso pareça. Precisamos apreciar tudo que nos somam alegrias e felicidades, sejam estes gente, árvore, bichos, ideias, certezas, pássaros, amores ou flores. Estou a menos de um mês de completar 30 anos e pareço só agora começar a me dar conta disso, também impulsionada por este debate.
Dizem que conselho, se fosse bom, estaria à venda. Mas, ainda acredito que coisas relevantes também acontecem de graça, assim como os vira-latas para adoção. E o meu conselho de mãe é para que, independente do assunto, conversem de forma honesta com seus filhos. A honestidade sempre gera bons frutos e poupa decepções futuras.

Pois é: nosso cachorro um dia vai mesmo morrer. E antes disso não nos deixará filhotes. Mas boa parte do mérito por ele ser esse bicho carinhoso e querido é da castração. Se não fosse castrado, provavelmente não seria tão doce. E sobre seus descendentes, pense na população de vira-latas do mundo como uma enorme família. Nunca nos faltará um a ser ajudado.  



segunda-feira, 4 de abril de 2016








DIA DE FINAL FELIZ!
July foi resgatada pela protetora Ocicleida, já sem um dos seus olhinhos e com bastante secreção. Ela entrou em contato com a AMPARA Animal sobre o caso e encaminhamos ao nosso parceiro Vet Quality Hospital Veterinário 24h, que tem uma equipe supercompetente e amorosa, disposta a ajudar os animais carentes. O Dr. Cauê conversou com o Dr. Rodrigo ChapChap, oftalmologista, que imediatamente se prontificou a ajudar a July e realizou a cirurgia oftalmológica. 
Hoje, recebemos a notícia que July está se recuperando muito bem em sua casa, onde está segura e confortável! Mais um final feliz para uma de nossas amparadas!





segunda-feira, 21 de março de 2016



Todo ano, um ritual se repete: com a chegada da Páscoa, Coelhos são dados de presentes e, após seu crescimento são descartados. *Cerca de 300 coelhos são abandonados anualmente em abrigos, graças ao fenômeno pós-Páscoa e esse número só aumenta.
Apesar de fofinhos, animais nunca devem ser vistos como presente. Coelhos, por exemplo, precisam de bastante espaço, uma rotina de exercícios, alimento específico, limpeza constante (fazem suas necessidades cerca de 300 vezes por dia) e muito amor por, em média, 12 anos. Além disso, eles têm uma estrutura óssea muito frágil e por isso, não são ideais para crianças.
Nessa Páscoa, não dê Coelhos de verdade de presente! Pelúcias são adequadas para isso. Caso seu filho peça um, explique que ele é um animalzinho que deve viver em seu Habitat Natural, livre e feliz!
E lembre-se, caso tenha um coelho, não abandone seu amigo! Depois de domesticados, eles não sabem buscar seu próprio alimento e fugir de predadores. ABANDONO É CRIME.
‪#‎coelhonaoebrinquedo‬ ‪#‎coelhovivonaorepresentaapascoa‬
*Fonte: PetMag


terça-feira, 15 de março de 2016

Agora, você pode encontrar seu melhor amigo de um jeito diferente.
Em parceria com a Pedigree, por meio do projeto PEDIGREE® Adotar é tudo de bom, e com a Zap lançamos hoje a campanha: "Procurando uma nova casa? Encontre um novo amigo!" Assista o vídeo, produzido pelaAlmapBBDO, compartilhe e nos ajude a encontrar um lar para nossos animais amparados!




segunda-feira, 7 de março de 2016

Todo inocente é um fdp?

Como se mover num mundo em que se tornou impossível não enxergar o mal que se pratica

Lembro uma cena do primeiro filme da trilogia Matrix, ícone do final do século 20. Os membros da resistência eram aqueles que, em algum momento, enxergaram que a vida cotidiana era só uma trama, um programa de computador, uma ilusão. A realidade era um deserto em que os rebeldes lutavam contra “as máquinas” num mundo sem beleza ou gosto. Fazia-se ali uma escolha: tomar a pílula azul ou a vermelha. Quem escolhesse a vermelha, deixaria de acreditar no mundo como nos é dado para ver e passaria a ser confrontado com a verdade da condição humana.
Na cena que aqui me interessa recordar, um traidor da resistência negocia os termos de sua rendição enquanto se delicia com um suculento filé. Ele sabe que o filé não existe de fato, que é um programa de computador que o faz ver, sentir o cheiro e o gosto da carne, mas se esbalda. Entregaria sua alma às máquinas em troca de voltar na melhor posição – rico e famoso – ao mundo das ilusões. Delataria os companheiros se a ele fosse devolvida a inocência sobre a realidade do real. Sacrifica a luta, os amigos e a ética em troca de um desejo: voltar a ser cego. Ou voltar a acreditar no filé.
A frase exata, pronunciada enquanto olha para um naco da carne espetada no garfo, é: “Eu sei que esse filé não existe. Sei que, quando o coloco na boca, a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso”. Faz uma pausa: “Depois de nove anos, sabe o que percebi? A ignorância é maravilhosa”.
Naquela época, véspera da virada do milênio, o filme deu ao público uma porta para o debate filosófico sobre o real. Tomar a pílula vermelha logo tornou-se uma metáfora para quem escolhe enxergar a Matrix – ou enxergar para além das aparências. Desde então, nestes últimos anos de corrosão acelerada das ilusões, penso que a escolha se tornou bem mais complicada.


A ilusão, que desempenhou um papel estrutural na constituição subjetiva da nossa espécie, pode já não estar ao nosso alcance

Talvez o mal-estar do nosso tempo seja o de que já não é possível escolher entre a pílula azul e a vermelha – ou entre continuar cego ou começar a enxergar o que está por trás da trama dos dias. O mal-estar se deve ao fato de que talvez já não exista a pílula azul – ou já não seja mais possível a ilusão, esta que desempenhou um papel estrutural na constituição subjetiva da nossa espécie ao longo dos milênios.
Se fosse um de nós o membro da resistência disposto a trair os companheiros, a negociar a rendição com as máquinas diante de um suculento filé num restaurante, aqui, agora, e não mais no final dos anos 90, o dilema poderia sofrer um deslocamento. O drama não seria enxergar o filé como filé, no sentido de poder acreditar que ele existe, assim como acreditar que o restaurante existe e que o cenário a que chamamos de mundo existe tal qual está diante dos nossos olhos.
Não. O dilema atual pode ser também este, mas só na medida em que também é outro. O drama é que acreditamos no filé, sabemos que ele existe e sabemos que é gostoso. Desejamos o filé, nos lambuzamos dele e temos prazer com ele. Ao olhar para ele, porém, não enxergamos apenas “o deserto do real”, mas algo muito mais encarnado e cada vez mais inescapável: enxergamos o boi.
É terrível enxergar o boi. E, como os mais sensíveis já descobriram, é impossível deixar de enxergá-lo. Nossa superpopulação de humanos extrapolou a lógica dos vivos, matar para comer. E impôs a escravização e a tortura cotidiana de outras espécies. Milhões de bois, galinhas e porcos nascem apenas para nos alimentar em campos de concentração aos quais damos nomes mais palatáveis. São sacrificados em holocaustos diários sem que nem mesmo tenham tido uma vida.
Animais confinados, presos, às vezes sem sequer poder se mover por uma existência inteira. Criamos profissões capazes de reconhecer em segundos se um pinto é macho ou fêmea para separar as fêmeas que viverão espremidas, muitas vezes sem conseguir sequer abrir as asas, botando ovos e depois virando bandejas no supermercado e jogar os machos para serem moídos ainda vivos no triturador de lixo. Escravidão e tortura/sacrifício e lixo, estes são os destinos que determinamos aos frangos.


Somos os nazistas das outras espécies – e produzimos holocaustos cotidianos

Somos os nazistas das outras espécies. E, se antes era possível ignorar, desqualificando a questão como algo menor ou coisa de “adoradores de alface”, a internet e a disseminação de informações tornaram impossível não enxergar o olho do boi. Ao olhar para o filé, o olho do boi nos olha de volta. O olho vidrado de quem está aterrorizado porque pressente que caminha no corredor da morte, o boi que se caga de medo enquanto é obrigado a dar o passo para o sacrifício, o boi que tenta escapar, mas não encontra saída. O olho do boi alcança até gente como eu, que pode ser colocada na categoria “adoradores de churrasco”.
A publicidade do século 20 perdeu a ressonância em tempos de internet. Porque a ilusão já não é possível. Nada era mais puro do que o leite branco tirado de uma vaquinha no pasto. Era fácil acreditar na imagem bucólica do alimento saudável. Nosso leite vinha do paraíso, de nosso passado rural perdido, da vida nos bosques de Walden. Assim como a longa série de produtos dele originados, como queijo, iogurte e manteiga.
Mas a vaca da imagem não existe. A real é a vaca que nasce em cativeiro, filha de outra escrava. A vaca que quase não se move, cuja existência consiste numa longa série de estupros por instrumentos que se enfiam pelo seu corpo para fecundá-la com o sêmen de outro escravo. Então ela engravida e engravida e engravida de bezerros que dela serão sequestrados para virar filés, para que suas tetas sigam dando leite delas tirados por outras máquinas. E, como sabemos disso, o leite que chega à nossa mesa já não pode mais ser branco, mas vermelho do horror da vaca cujo corpo virou um objeto, a vaca para quem cada dia é tortura, estupro e escravidão.
Para não beber sangue procuramos nas prateleiras leites à base de vegetais. Vegetais não gritam. Soja, apenas um dos tantos exemplos. Bifes de soja, hambúrgueres de soja, linguiças de soja, leite de soja. Mas como ignorar o desmatamento, a destruição de ecossistemas inteiros e com eles toda a vida que lá havia? Como ignorar que a soja pode ter sido plantada em terra indígena e que, enquanto ela vira mercadoria no supermercado, jovens Guarani Kaiowá se enforcam porque já não sabem como viver? Já não é possível fingir que não enxergamos isso. Assim, nem os veganos mais radicais podem se salvar do pecado original.


Os mais sensíveis sentem a textura de suas roupas e sabem que são costuradas com carne humana

Olhamos para nossas roupas e horrorizados sabemos que em algum lugar da linha globalizada de produção há nelas o sangue de crianças, homens e mulheres em regime de trabalho análogo à escravidão. Como o casal que morreu abraçado na fábrica de Bangladesh, gerando a fotografia que comoveu o mundo mas não eliminou o horror que seguiu em escala industrial. Ou mesmo de um imigrante boliviano enfiado num quarto insalubre trabalhando horas e horas por quase nada bem aqui ao lado. Mas os mais sensíveis sentem a textura de suas roupas e sabem que são costuradas com carne humana. E já não sabem como vesti-las. Nem sabem como dar brinquedos para seus filhos porque sabem que os bonecos, os carrinhos, os castelos e os dinossauros contêm neles o sangue das crianças sem infância, ou o de suas mães e pais.
Já não é possível levar crianças a zoológicos ou aquários porque sabemos que a única educação próxima da verdade que receberiam ali é a do horror a que os animais são submetidos para serem exibidos, por melhor que seja a imitação de seu habitat. Lembro uma reportagem que fui fazer num zoológico, planejada para ser divertida, e só pude contar, entre outros horrores, que o babuíno chamado Beto era mantido à custa de Valium, para evitar que arrancasse pedaços do próprio corpo. Mesmo dopado jogava-se contra as grades, atirava fezes nos visitantes e espancava a companheira. Pinky, a elefanta, vivia só. Seus dois companheiros tinham morrido ao cair no fosso tentando escapar do cativeiro. Sabemos hoje que os golfinhos e as baleias dos shows acrobáticos são escravos brutalizados para servir de entretenimento a humanos. E, desde que sabemos, aqueles que gozam com esses espetáculos de morte podem se descobrir não mais como famílias felizes num momento de lazer, como nas imagens dos folhetos publicitários, mas como hordas de sádicos.
No simples ato de acender a luz já existe a consciência de que estamos destruindo o mundo de alguém e de que nada mais será simples. Neste momento, para ficar apenas num exemplo, dezenas de milhares já perderam suas casas no rio Xingu, na Amazônia, para a operação da Hidrelétrica de Belo Monte. Povos indígenas que vivem na região atingida já não conseguem suportar o aumento exponencial de mosquitos desde que o lago da usina começou a encher, alterando o ecossistema e dizimando culturas, no que já foi denunciado pelo Ministério Público Federal como etnocídio. Os impactos mal começaram e, em menos de três meses, mais de 16 toneladas de peixes morreram. E talvez também esteja chegando ao fim o tempo em que ainda é aceitável contar vidas por toneladas, mesmo que seja a vida de peixes. Ou a morte de peixes. Um dedo no interruptor e uma cadeia de mortes. E agora também já sabemos disso.


Ao pedir um café e um pão com manteiga na padaria, nos implicamos numa cadeia de horrores

O tempo das ilusões acabou. Nenhum ato do nosso cotidiano é inocente. Ao pedir um café e um pão com manteiga na padaria, nos implicamos numa cadeia de horrores causados a animais e a humanos envolvidos na produção. Cada ato banal implica uma escolha ética – e também uma escolha política.
A descrição das atrocidades que cometemos rotineiramente pode aqui seguir por milhares de caracteres. Comemos, vestimos, nos entretemos, transportamos e nos transportamos à custa da escravidão, da tortura e do sacrifício de outras espécies e também dos mais frágeis da nossa própria espécie. Somos o que de pior aconteceu ao planeta e a todos que o habitam. Amudança climática já anuncia que não apenas tememos a catástrofe, mas nos tornamos a catástrofe. Desta vez, não só para todos os outros, mas também para nós mesmos.
Já não é possível a pílula azul – ou já não é possível à adesão às ilusões. Há várias implicações profundas numa época em que o conhecimento não liberta, mas condena. A começar, talvez, pela pergunta: quem é o inocente num mundo em que a inocência já não é possível? Seria o inocente o pior humano de todos? Seria o inocente um psicopata?
O que seremos nós, subjetivamente, agora que estamos condenados a enxergar? As redes sociais têm nos dado algumas pistas. O que a internet fez foi arrancar da humanidade as ilusões sobre si mesma. O cotidiano nas redes sociais nos mostrou a verdade que sempre esteve lá, mas era protegida – ou mediada – pelo mundo das aparências. Sobre isso já escrevi um artigo, chamado A boçalidade do mal, que pode ser lido aqui. As implicações de perder este véu tão arduamente tecido são profundas e recém começam a ser investigadas. O impacto sobre a subjetividade estrutural de nossa espécie é tremendo, exatamente porque é estrutural e desabou num espaço de tempo muito curto, quase num soluço.


Já não é mais possível pensar apenas em humanos quando se aborda o tema dos direitos

O que faremos diante da impossibilidade da pílula azul, a que garantia as ilusões? A ridicularização daqueles que levantam esse tema ainda é um caminho, mas convencem menos que no passado. Também a piada se torna anacrônica. As interrogações vêm mudando, e já não é possível afirmar, sem revelar considerável ignorância, inclusive sobre a ciência produzida, que os animais não têm vida mental nem emocional, são “irracionais”. Ou, lembrando um argumento religioso, “que não têm alma”. Toda a ideologia que um dia justificou a escravidão de humanos, até que foi questionada, derrubada e transformada numa mancha de crime e vergonha na história da humanidade, passou a ser confrontada também com relação aos animais.
Cada vez mais as outras espécies começam a ser vistas como diferentes – e não mais como inferiores. Assim, o que se coloca no campo da ética são questões fascinantes e muito mais espinhosas. Mesmo o termo “direitos humanos” passa a ser questionável, porque pensar apenas em “humanos” já não é mais possível. No momento em que nos tornamos a própria definição de catástrofe, o conceito de “espécie”, em sua expressão cultural, se desloca. Outras formas de compreender e nomear o lugar dos humanos ganham espaço no horizonte filosófico e no exercício da política.
Resta o cinismo, sempre o último reduto. Dizer que, diante de mais de 7 bilhões de seres humanos ocupando o planeta e crescendo, não há outra maneira a não ser comer e vestir exploração, escravidão e tortura é a afirmação mais óbvia. É a afirmação expandida usada para todas as desigualdades de direitos. Desde que não seja eu – ou os meus – os sacrificados, tudo bem.
Vale a pena dedicar um parágrafo aos cínicos, essa categoria que prolifera com o ímpeto de um Aedes aegypti no Brasil e no mundo. O cínico é aquele que olha com calculado enfado para todos os outros, porque ele acredita que entende o mundo como ele de fato é. Ele é o que sabe das coisas, o único esperto. Todos os outros são tolinhos com ideias irreais. O cínico é aquele que deixa o mundo como está. Mas talvez, neste momento, o cínico seja justamente o inocente. Sua inocência consiste em acreditar que a pílula azul ainda está disponível.


Como ser ético num mundo sem ilusões, em que cada ato implica na tortura e no sacrifício de um outro?

Há um preço para enxergar e, mesmo assim, assumir o extermínio cotidiano como dado, como parte intrínseca da condição de ser um humano. Nem toda a crescente gourmetização da comida, nem todas as narrativas ficcionais que contam uma história idílica sobre a origem daquele produto, nada ocultará esse preço. E nada reduzirá seu impacto subjetivo. Não é fácil viver na pele do algoz. Não é simples viver sabendo-se. Aquele que se olha no espelho e se enxerga carregará essa autoimagem consigo. E se tornará algo que já não é mais o mesmo.
Há uma imagem recente que pode dar algumas pistas sobre esse caminho. Numa praia da Argentina, um golfinho foi carregado por turistas. Alguns dizem que ainda estava vivo, outros que já estava morto. Vivo ou morto, os turistas preocuparam-se apenas com tirar selfies para postar nas redes sociais. O site de humor Sensacionalista postou: “Golfinho morre ao ser retirado do mar para turistas fazerem selfie e Deus anuncia recall do ser humano”.
Ainda assim, quem se horrorizou com a falta de horror alheia, à noite seguiu diante do olho do boi. O que fazer diante do olho do boi? Como ser ético num mundo sem ilusões, em que cada ato implica na tortura e no sacrifício de um outro, humano e não humano? Se somos os nazistas das outras espécies, quando não da mesma, aceitar que assim é não seria se tornar um Eichmann, o nazista julgado em Jerusalém que alegou apenas cumprir ordens, o homem tão banalmente ordinário que inspirou a filósofa Hannah Arendt a criar o conceito da “banalidade do mal”? Não seríamos, aos olhos do boi, todos Eichmann, justificando-nos pelo senso comum de que assim é e se faz o que é preciso para sobreviver? Se sim, o que implica viver assumidamente nesta pele?
Talvez estejamos, como espécie que se pensa, diante de um dos maiores dilemas éticos da nossa história. Sem poder optar pela pílula azul, a das ilusões, condenados à pílula vermelha, a que nos obriga a enxergar, como construir uma escolha que volte a incluir a ética? Como não paralisar diante do espelho, reduzidos ou ao horror ou ao cinismo, eliminando a possibilidade de transformação? Como nos mover?
Diante do filé que desejamos e do olho boi que nos interroga, há pelo menos uma hipótese cada vez mais forte: o inocente é um assassino.

Fonte: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/02/29/opinion/1456756118_797834.html

quarta-feira, 2 de março de 2016


Hoje, queremos apenas agradecer!

Agradecer a cada um que doou um pouquinho do seu tempo e da sua renda para ajudar a AMPARA Animal em sua missão de auxiliar os animais carentes. 
Graças a cada um de vocês, alcançamos nossa meta. Foram arrecadados R$ 21.535 reais, que serão totalmente revertidos para a causa animal.
Os últimos calendários já estão sendo enviados, mas logo, logo todos os que contribuíram terão um pouquinho das histórias de superação e amor dos animais especialmente diferentes que estrelam no nosso calendário.
Obrigada por unir forças com a gente para mudarmos a dura realidade dos animais abandonados! Juntos, somos uma multidão!